
LM e eu hoje concluimos que temos mais sono agora do que quando erámos miúdas, o que é uma coisa muito rara, parece-nos. Isto do dormir, ou melhor, não dormir e o consequente cansaço preocupa-me particularmente.
Como já referi, normalmente gosto da escrita de Isabel Stilwell. Quando gosto muito, presto-lhe esta homage:
Às vezes só despertamos a sério quando a história é tão dramática que não conseguimos continuar a ignorar a realidade. Eu abri os olhos de terror quando ouvi a história do bebé de 9 meses que morreu em consequência do pai se ter esquecido dele no carro. Este esquecimento mortal fez-nos tremer a todos por dentro. Poucos, felizmente, se atreveram a apontar o dedo. Pudera, quantos de nós não sentimos que poderia ter sido connosco?
Quantos não relembrámos, na vergonha do silêncio, as vezes em que o cansaço baralhou os nossos neurónios e nos levou a cometer actos de que só a posteriori tomámos plena consciência.
Remédios que nos esquecemos de dar a uma mãe doente, a água da banheira ligada, com subsequente inundação, sem que nos recordemos sequer de ter dado a volta à torneira, filhos que deixámos na escola e só demos por isso quando parámos à porta de casa, como se o percurso do trabalho para ali já estivesse tão automatizado, que já nem exigisse um estado de alerta. Por sorte, talvez apenas por sorte, não estamos na pele deste pobre pai.
Este caso deu apenas visibilidade àquilo que, há anos, os profissionais do sono têm vindo a dizer.
A prof. Teresa Paiva, por exemplo, publicou um livro sobre o assunto, e há décadas que se multiplica em entrevistas em que jura que a falta de um sono reparador, e o cansaço acumulado, transforma as vítimas em potenciais homicidas.
Matam em acidentes de viação, em catástrofes como Chernobyl, e em mil situações eufemisticamente rotuladas de «erro humano». Teresa Paiva define estas pessoas exaustas como «bombas relógio», gente que julga (sonha!) que está acordada, mas na prática está de olhos abertos mas ferrada a dormir.
A socióloga Anália Torres descobriu que os pais de crianças com menos de 10 anos andam completamente estoirados. O Estado, as empresas, ou seja, todos nós, temos que nos co-responsabilizar por estes jovens casais e pelos seus filhos.
Quando foi a última vez que mandou descansar um empregado que não pregou olho por causa das cólicas do seu recém-nascido, quando é que se ofereceu para baby-sittar os filhos da sua vizinha? Ah, pois!
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