Escrevi este texto em 2003 ou 2004, foi publicado numa revista da especialidade e ganhou o 1º prémio. Duarte continua lindo ("quem é o bébé mais lindo, com olhos iguais aos da mãe?!) e eu continuo a pensar da mesma forma (acho que sou uma pessoa coerente):
Chamo-me Duarte. Nasci à beira-mar, no Verão de 1994. Num domingo de sol em Dezembro, escolhi os meus donos. Aproximei-me dele, que me deu um pouco de queijo. Em agradecimento, entrei no seu carro e, junto aos pedais, apresentei-lhe a minha linda barriga, convidando-o a fazer-me festas. Ele não resistiu e chamou a minha (futura) dona. Ela achou-me piada, fez-me festas e ele disse-lhe: “Vamos levá-lo!”
A minha dona foi procurar se eu pertencia a alguma das poucas casas junto aquela praia e uma senhora respondeu-lhe que não, eu e a minha mãe vivíamos “por ali” e que eu estava gordinho, porque ainda mamava. E que sim, podiam levar-me! Não me despedi da minha mãe, porque devia andar a caçar e não a encontrámos.
A viagem para Lisboa, de carro, foi horrível, miei todo o caminho (Ah! Não tinham percebido que eu sou um gato?! Pela sedução aos meus donos, deviam ter percebido!!!) Durante a viagem, a minha dona e futura “mãe” disse, em tom de brincadeira, que nesse dia faziam 1 ano e 3 meses de casados e “nasci-lhes eu”. Chegámos à minha casa e ele foi comprar-me o enxoval (todo azul, porque sou um menino!): coleira e trela (não sei para quê!), o caixote das necessidades e ração. Enquanto, fiquei com a minha dona, que me deu água e fiambre para entreter. Fiz o reconhecimento à casa e gostei: muitas janelas e um aquário de metro, que elegi como favorito, é tão quentinho! Ela deixou-me à vontade e quando regressei para junto de si, ela olhou-me e disse: “Onde vou encontrar o veterinário a um domingo? Deixa ver como tu estás!” e começou a apalpar-me as orelhas, a ver o pêlo, as patas, a boca. Enquanto, fazia-me festas e eu gostei deste exame. No fim, disse-me: “Tirando uma pulguita ou outra, não estás mal. Vamos amanhã para desparasitar e começar o plano de vacinas!”
Sempre que olho para a minha dona, lembro-me deste 1º dia e como a escolhi como favorita. Talvez por ela me chamar “filhinho” e dizer que saio a ela, tenho olhos verdes como os dela (a pesar de ela os ter castanhos). Desde este 1º dia, que o seu colo é o local mais confortável do Mundo e de noite, durmo nas suas pernas ou deitado no seu cabelo, pouso a cabeça sobre a sua orelha e ronrrono... Depressa percebi que éramos só os 3: os meus donos e eu, sendo eu o centro das atenções. O meu dono brinca muito comigo e, quando eu lhe peço, dá-me banho. Ela escova-me, dá-me de comer, limpa a minha casa de banho e, sobretudo, dá-me muito colo! Ela gosta de escrever, de bordar Arraiolos e de pintar, actividades em que me instalo ao seu colo e ela nunca me repele.
Apenas estive doente uma vez, pouco tempo depois de ter adoptado os meus donos: tive um cálculo renal e muitas dores. Na sala de espera do consultório, as lágrimas corriam pela cara da minha dona e eu não percebia porque, apenas sentia muitas dores. Ela chorava e pediu-me para não morrer. Soube depois que ela já tinha tido uma gata, há muitos anos, que lhe morreu no colo, com uma doença incurável. Mas eu não ia dar esse desgosto à minha ”mãe” e ainda hoje, quando vamos à “revisão”, ela agradece ao veterinário por me ter salvo.
Durante anos, fui “filho único”: durante o dia, dormia em cima do aquário, nos sofás com os peluches que a minha dona me deu ou na sua almofada da cama. À hora dela chegar, vou para a janela esperá-la. Não tenho acesso a janelas abertas nem à varanda (que chatice!), porque tem medo das quedas, diz. Bem, ninguém é perfeito!
Gosto de ter irmãos. Um dia, a minha dona veio com a conversa de que eu estava muito sozinho e precisava de companhia. Hoje, somos 4: a pequena M, a M. e o J. Além de nós, sei que os meus donos têm “afilhados”: a minha dona está sempre a dizer para comermos tudo, porque há meninos que não têm nada para comer e a perguntar ao meu dono se comprou comida para os cães. Às vezes, têm cheiros diferentes quando chegam a casa e apercebo-me que “fomos traídos”. Mas não tem importância nenhuma: quando regressam, são o centro das nossas atenções (às vezes, estamos os quatro ao colo da minha dona, “às camadas” como ela diz.
Apesar de sermos 4 (os outros contarão as suas histórias noutra ocasião), ela não tem preferências: continua a dizer-me que sou o menino mais lindo da mãe, mas diz o mesmo aos outros. O meu dono não tem preferências. Com todos brinca, dá colo e comida: quando queremos comer de noite, é com ele que vamos ter, porque tem o sono mais leve e levanta-se sempre para nos dar de comer; e quando estive doente, foi ele que passou noites seguidas acordado comigo ao colo…
Ah! A minha dona refere-se sempre a nós como os meninos, os bebés, os filhinhos, os ursinhos e diz que mãe não é quem tem, mas quem cria. E os meus donos criaram-nos desde bebés.
E os anos foram passando: para nós, os nossos donos são as nossas mascotes, são sempre os mais lindos, mesmo quando os acordamos de manhã com lambidelas e brincadeiras, são o nosso Mundo, porque nos adoram.
Chamo-me Duarte e sou um gato muito feliz!
segunda-feira, 27 de abril de 2009
O meu primogénito
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