sábado, 14 de novembro de 2009

Dia I – Barcelona





Como prometido, eis os meus pensamentos, a 1.200 km de casa:


Em dia de capicua [mais uma na encruzilhada da minha vida], deixo Lisboa, com os olhos postos na 2ª Circular, que me conduziria a casa, e no sol, que espreita pelas nuvens para onde me dirijo.



Preencho a viagem com o MP4 quase ao máximo e revistas cor-de-rosinha, para não ouvir a algazarra dos passageiros e as instruções de voo do Cmdt. Ignoro o idiota-canastrão que me observa, ao meu lado, toda a viagem – mais do mesmo: faz-lhe “confusão” uma mulher viajar sozinha, sou a única neste voo TAP, felizmente não-cheio, que permite um lugar higiénico entre o idiota-canastrão e moi.



[Ainda no aeroporto, já na porta de embarque, reflicto: o “nosso” pessoal do aeroporto é mesmo porreiraço; na fila de Controlo, cerca de 200 pessoas, a fila começa muito antes do serpenteado verde, as pessoas coladas umas às outras – ignorando todas as normas de segurança da Pandemónia – falam, sobretudo ao telefone (muito as pessoas têm para dizer umas às outras, só eu nada tenho de interessante, acho, para comunicar ao mundo…- . O Controlador de massas, após 4 ou 5 vezes de me ver de olhos nele pregados, manda-me avançar. Coloco os meus haveres nos cestos, respondo às perguntas da praxe: “Tem líquidos?”, “Tem computador?” e passo à “Apalpadeira”: a jovem é ligeiramente mais alta que eu e fixo o olhar algures entre a sua testa, enquanto as suas mãos me percorrem o corpo, com gestos mecânicos. Quando as sinto nos tornozelos, pergunto-lhe, sem me mexer, se quer que me descalce, responde-me que não e deseja-me boa viagem – são ou não são uns porreiraços?].

Desembarco. Sorrio, já cheia de saudades do pessoal TAP e despisto o idiota-canastrão, entrando na Desigual. Dou uma volta e já com uma blusa na mão, do meu número, prestes a comprá-la, sou interrompida pelo funcionário da loja. Pergunta-me se quero o meu número (?!), respondo que não e pouso o cabide, saindo apressada da loja. Odeio que me interrompam [já sei que só estava a fazer o seu trabalho, mas mesmo assim…]. Não teve que ser, talvez no regresso…



No táxi-point, fumo 1 cigarro enquanto ligo à minha mãe [quer sempre ouvir a minha voz, nada de sms, pois claro!], envio sms a F. e um espanhol – este é giraço!! –pede-me um cigarro [que chatice, bolas! Eu, mala-assoalhada, maleta, telefone e cigarro é muita coisa junta!]. Perante o meu olhar entre o fulminante e o apático e incomodativamente fixado nele, desanda. A táctica da “tontinha” resulta sempre. Encontro-me vestida de negro integral, com acessórios turquesas [um visual um poco raro para Espanha], o ar de 15º fere-me as pernas desnudadas. Sei que é Novembro, mas sai de Lisboa com 20º, ok?



É, há muito,noite cerrada e dirijo-me então à fila dos táxis, uma rapariga indica-me qual o meu, agradeço-lhe e devolve-me o sorriso. Mais uma que pensará, decerto, que sou andaluza, como todos por cá. Ela também é morenita, apesar de 15 cm mais baixa, não me parece catalã.

Isto é o que Barcelona tem de mais fascinante: absolutamente multi-racial, tipo NY, ninguém olha para ninguém, acredito que possa sair nua para a rua que ninguém liga, ninguém dá conta. É uma cidade completamente livre de preconceitos.

O táxi corta a cidade. Barcelona à noite. Através da janela do carro em andamento. Observo, sobretudo as alterações. Vive em constante obra [que ninguém se queixe das obras em Lisboa], ruas cortadas daqui, abertas dali.

Faço check-in no Hotel num instante, deixo a mala no quarto. Desço pela escada, necessito de exercício, saio, dou 2 passos, viro a esquina e estou na Gran Via. Percorro-a calmamente, sorrio a duas idosas e afago o seu cão, grande e negro e sussurro-lhe a uma orelha: “Tengo una perrita, toda blanca…”. Sigo o meu caminho, que não é nenhum, páro na montra de uma florista, maravilhosa. Admiro-a por alguns segundos. Sinto fome e frio nos pés. Entro numa esplanada envidraçada. Olho o menu: “Meu Deus! Que se lixe: quero 1 pizza [super-hiper-calórica-Valha-me-Deus] e um sumo laranja natural” (cada artigo vale 6 Eur): a pizza dava para 3, fico enfartada, logo eu, uma verdadeira trituradora! O sumo está magnífico [enviam para Portugal as laranjas amargas, agora estou certa!], observo as pessoas que passam, entre cada garfada. Terminado, faço-me novamente ao caminho, agora para triturar a [maldita] pizza.
Detenho-me numa tienda de aspecto muito cool, muito trendy: pinturas com henna. Num impulso, entro, quero uma na perna. Escolho o desenho, imóbil, quase tirito de frio. Pessoas simpáticas, sorridentes, que me olham directamente nos olhos. Deixo lá 20 Eur, saio feliz.
Faço o caminho inverso, já é tarde [para mim, não para Barcelona, mas reuniões marcadas às 8:30 h significam 7:30 h pela “nossa” hora e, nessa altura, os meus neurónios recusam-se a qualquer reacção que não seja mecânica]. Regresso ao Hotel, entro no quarto, nem sinto os pés [estou sem meias, ‘tá bem?]: mergulho-os em água quente para “descongelarem” – não posso molhar ainda a perna pintada -, massajo-os com creme, acho que vou dormir de robe vestido, “Quem me mandou trazer uma camisa-de-noite de alcinhas?”, martirizo-me. O ar condicionado não responde [ainda] às minhas exigências. Atiro-me sobre a cama, a televisão espanhola é bem pior que a nossa, acerto o despertador do telemóvel para uma hora que até assusta…quero tomar o pequeno-almoço com calma, pôr-me linda e maravilhosa e inteligente [já agora, dava jeito!] para o dia que se avizinha. Vejo as horas: a esta hora, estaria no meu sofá, com as minhas crianças ao colo, todos quentinhos e bem aconchegadinhos…Em breve, F. chegaria e estaríamos todos juntos…e eu não sentiria frio.

(continua)


2 comentários:

maria teresa disse...

Descrição tão perfeita, tão perfeita, que eu estive "lá" ao seu lado e a passar pelas mesmas "coisas"...
Aguardo pacientemente pela continuação.
Bjs

Ana Alvarenga disse...

Sempre tão amorosa, Maria Teresa! Receio decepcioná-la: afinal, não passam de tonterias ;-)