De regresso à cidade, revejo o passeio matinal de hoje entre os pinheiros. O ar fresco acordou-me completamente e a Pipoquinha corria, feliz, na areia fofa e escura, entre pinhas, caruma e galhos. As aves saltitavam de ramo em ramo e lembrei-me que, dentro de pouco tempo, teremos o Terror da Natureza, de volta outra vez. Com o Verão, vem a caça e a impossibilidade de sairmos de casa sem receio de levar uma chumbada. Os caçadores invadem povoações e propriedades, abatendo tudo o que se mova. Vou acordar ao raiar da luz, ao som de tiros e apelar em silêncio para que uma Força Superior oriente as rolas, os pombos, as pegas e todas as outras aves para perto de mim, para eu possa, talvez, protegê-las da morte cobarde.
Já há muitos verões atrás que avisei F., com ar aterrorizador e de dedo em riste:
- “ Se entra aqui algum caçador, vamos ter problemas. Quero almoçar e jantar ao ar livre à minha vontade. Sem levar um chumbo, se não for pedir demais. Eu corro com eles à paulada e chamo a GNR…Aqui, preserva-se a vida, seja ela qual for."
F. limita-se a sorrir, condescendente, habituado às minhas rosnadelas e acrescenta:
- “Lembra-te que estão armados com caçadeiras. E não adianta chamares a GNR, se quiserem, dão cabo de ti, é melhor ficares lá dentro.”
Já há muitos verões atrás que avisei F., com ar aterrorizador e de dedo em riste:
- “ Se entra aqui algum caçador, vamos ter problemas. Quero almoçar e jantar ao ar livre à minha vontade. Sem levar um chumbo, se não for pedir demais. Eu corro com eles à paulada e chamo a GNR…Aqui, preserva-se a vida, seja ela qual for."
F. limita-se a sorrir, condescendente, habituado às minhas rosnadelas e acrescenta:
- “Lembra-te que estão armados com caçadeiras. E não adianta chamares a GNR, se quiserem, dão cabo de ti, é melhor ficares lá dentro.”
E tem razão, infelizmente. Mas eu não acho normal que seja privada da minha liberdade, apenas porque outros entendem que matar, cobardemente, animais indefesos é um desporto. E a morte, bárbara e desnecessária, incomoda-me muito.
Já não basta matarem os garranos no Gerês, a águia-imperial em Beja e tantos, tantos outros que ninguém fala?!
Atravessamos a ponte sobre o Tejo, admiro a cidade aos meus pés, viro-me e confirmo a evidência: a Pipoquinha dorme a sono solto, ao sol, no banco de trás, deitada à bébé. Sei que daqui a uns tempos, neste mesmo lugar, irei encontrar jipes que rebocam atrelados minúsculos, onde cães exaustos se amontoam, de regresso aos canis onde vivem, depois de uma vez mais servirem o seu amo. Manifesto sempre o meu desprezo aos habitantes desses jipes [com uma arma na mão, contra animais indefesos e assustados, são muito valentes, mas serão assim tão valentes ao enfrentarem outro ser, de igual para igual?!]. Sobretudo quando vou sozinha, F. receia represálias e, tenta, em vão, fazer-me mudar, porque não posso mandar nos outros, diz-me.

Mas tenho pena, muita pena…Ai se eu mandasse!
1 comentário:
Caçadores... outro odiozinho de estimaçao... credo!
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